A Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina participa da I Semana de Saúde Mental no Sistema Socioeducativo, iniciativa voltada à promoção e à proteção da saúde mental de adolescentes que cumprem medidas socioeducativas de internação. Ao longo da semana, serão realizadas ações em unidades de diferentes regiões do Estado, com atividades de escuta, diálogo e orientação.
A participação da Defensoria ocorre por meio do projeto "Diálogo que Transforma", desenvolvido pelo Núcleo da Infância e Juventude, Direitos da Pessoa Idosa e da Pessoa com Deficiência (NIJID). A proposta é levar às unidades socioeducativas rodas de conversa conduzidas por defensoras e defensores públicos, em uma linguagem acessível e adequada à realidade dos adolescentes.
A iniciativa parte de uma ideia simples: falar sobre saúde mental também é falar sobre a vida. Medo, raiva, saudade, pressão, ansiedade, isolamento e incertezas fazem parte da realidade de muitos adolescentes, mas podem ganhar novos contornos durante o cumprimento de uma medida de internação. A rotina repetitiva, a distância da família, as mudanças e a própria incerteza sobre o futuro podem tornar esse período ainda mais difícil.
"A medida socioeducativa é um período da vida de vocês, mas não define quem vocês são. A saúde mental de vocês importa tanto quanto o processo legal que está rolando", destaca o material desenvolvido pelo Nijid para as atividades.
Um espaço para conversar, não para julgar
As atividades não têm formato de palestra ou consulta médica. A proposta é criar um espaço de conversa em que os adolescentes possam refletir sobre o que sentem, reconhecer situações de sofrimento e conhecer caminhos para buscar ajuda. Ninguém é obrigado a contar sua história.
Durante os encontros, serão abordados temas como reconhecimento e expressão de sentimentos, ansiedade, depressão, raiva, cobranças e comparações, além da importância das redes de apoio e do acesso aos serviços de saúde.
Um dos pontos trabalhados é justamente a forma como o sofrimento pode se manifestar. Nem sempre ele aparece como tristeza. Pode surgir em forma de irritação, agressividade, explosões, impaciência, isolamento ou comportamentos impulsivos. A ansiedade, por exemplo, pode trazer coração acelerado, respiração curta e uma sensação constante de que algo ruim está prestes a acontecer. Já a depressão pode ser percebida pela falta de energia, pelo vazio e pela perda de vontade até mesmo para atividades simples do cotidiano.
A Defensoria também orienta os adolescentes sobre onde procurar ajuda. Entre as possibilidades estão profissionais da própria unidade, familiares e pessoas de confiança, além de serviços da rede pública de saúde, como UBS e CAPSi. A instituição também explica que seu papel não substitui o atendimento de psicólogos, médicos ou dos serviços de saúde, mas pode atuar quando houver dificuldade de acesso ou quando algum direito não estiver sendo respeitado.
Projeto já aborda temas importantes da vida dos adolescentes
O "Diálogo que Transforma" já é desenvolvido pelo Nijid nas unidades socioeducativas da Grande Florianópolis. As rodas de conversa tratam de assuntos relacionados à realidade, aos direitos, às relações sociais e aos desafios enfrentados pelos adolescentes durante e depois do cumprimento da medida.
Entre os temas já trabalhados estão violência doméstica e familiar, gravidez na adolescência e racismo. Agora, a saúde mental passa a integrar essa agenda de conversas. Para a defensora pública e coordenadora do Nijid, Mariana Macêdo, falar sobre saúde mental dentro das unidades é também reconhecer que esses adolescentes continuam tendo projetos, sentimentos, relações e expectativas para além do período de internação.
"Quando a gente conversa sobre saúde mental, está falando sobre aquilo que acompanha cada adolescente todos os dias: a saudade da família, a preocupação com o que vai acontecer depois da medida, a raiva, o medo, as cobranças e também os sonhos para quando estiverem novamente fora da unidade. Criar um espaço seguro de diálogo é uma forma de mostrar que eles podem pedir ajuda, que seus sentimentos importam e que a medida socioeducativa não define quem eles são."
Atividades chegam a diferentes regiões
A Defensoria já confirmou a participação nas unidades de Lages, Criciúma e Joinville, com atividades previstas para os dias 19 e 21 de agosto. O Nijid também mobiliza defensoras e defensores públicos voluntários para ampliar a participação em outras unidades socioeducativas do Estado durante o período da campanha.