Nesta sexta-feira (10/07), a roda de conversa da campanha Guardiãs da Ancestralidade, que teve como subtema "Memória como Insurgência: Ancestralidade e a Recusa do Esquecimento", abriu os caminhos da segunda edição do Julho das Pretas, promovido pela Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO).
O momento de troca de saberes foi conduzido por Mãe Sônia Cleide, que falou sobre ancestralidade e construção identitária, mulheres negras de axé como guardiãs da continuidade histórica.
A atividade foi realizada na Unidade Marista da DPE-GO, em Goiânia, e marcou o início do cronograma de atividades de educação em direitos voltadas ao público interno da Instituição, com rodas de conversa realizadas em todas as unidades para estimular reflexões sobre memória, ancestralidade, direitos humanos e o protagonismo das mulheres negras de axé na preservação da cultura e da história afro-brasileira.
Em sua fala, Mãe Sônia emocionou os presentes ao defender que os terreiros são, historicamente, espaços de saúde, acolhimento comunitário e preservação cultural. “O que nós temos de mais valioso é a nossa raiz. Comecei contando a história da minha mãe porque, muitas vezes, temos uma grande guardiã dentro de casa e não a reconhecemos”, contou.
“Para compreendermos o que o racismo tem feito conosco, precisamos voltar às nossas origens. Sempre tentam marginalizar o que fazemos e a forma como vivemos dentro do terreiro, mas a verdade é que o terreiro é, essencialmente, um espaço de saúde, acolhimento e cura”, complementou.
Valorização
Durante a solenidade de abertura, o defensor público-geral Tiago Gregório Fernandes enfatizou a relevância do tema. "Se a Defensoria Pública pretende se expandir, é fundamental ouvir esse público, formado majoritariamente por mulheres negras, historicamente vulnerabilizadas. Essa é a real relevância de debatermos o Julho das Pretas dentro da Instituição", afirmou.
“O nosso compromisso com os povos de terreiro é real e pautado pelo dever constitucional. Promover essa aproximação e essa defesa é serviço público, e o Estado precisa prestar esse atendimento de forma igualitária para todos”, garantiu o subcoordenador de Questões Étnico-Raciais, Povos Originários e Tradicionais do Núcleo Especializado de Direitos Humanos (NUDH), defensor público Breno Assis.
"Embora a oralidade marque a nossa cultura, o registro também é fundamental. Essa memória não pode se perder. Precisamos eternizar os ensinamentos de quem está aqui hoje, de quem já passou e de quem virá”, completou.
O subdefensor público-geral do Estado para Assuntos Institucionais, Allan Montoni Joos, e a ouvidora-geral da DPE-GO, Ângela Cristina, também participaram da abertura.
Julho das Pretas
O Julho das Pretas é um movimento nacional realizado em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ambos celebrados em 25 de julho. A iniciativa busca reconhecer a contribuição histórica das mulheres negras para a sociedade e ampliar o debate sobre igualdade racial, justiça social e enfrentamento às diversas formas de discriminação.
A campanha parte do reconhecimento de que as mulheres negras foram fundamentais para manter vivos saberes, tradições, práticas culturais, formas de organização comunitária e espiritualidades herdadas de seus ancestrais, mesmo diante da escravidão, do racismo estrutural e da perseguição às religiões de matriz africana.
Nesta edição, a DPE-GO propõe uma reflexão sobre quem preserva as memórias de um povo. A programação destaca especialmente as mulheres de axé, reconhece sua atuação como educadoras, lideranças comunitárias, cuidadoras e transmissoras de conhecimentos ancestrais.
Ao longo do mês, especialistas e lideranças convidadas conduzirão diálogos sobre memória coletiva, educação antirracista, religiosidade de matriz africana, espiritualidade, território, patrimônio cultural, democracia, justiça racial, participação política e produção de conhecimento pelas mulheres negras. Confira o cronograma de atividades.