Entre o brilho das fantasias e a emoção dos desfiles, a Marquês de Sapucaí foi palco de uma atuação que se mediu em cidadania. Durante os dias de Carnaval, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) mobilizou equipes e coordenações para garantir que, mesmo em meio à maior festa popular do país, direitos fossem protegidos e orientados à população.
A atuação ocorreu em duas frentes complementares: judicial e extrajudicial. No campo judicial, os Defensores Públicos estiveram de plantão junto ao Juizado do Torcedor, que funciona no Sambódromo da Marquês de Sapucaí durante os desfiles e reúne magistratura, Ministério Público e Defensoria para atendimento imediato de eventuais ocorrências. A presença institucional assegura que qualquer situação que demande intervenção jurídica tenha resposta rápida e qualificada.
Mas foi fora dos processos formais que a Defensoria também marcou presença de forma estratégica e humanizada. Equipes circularam pelas arquibancadas, frisas e áreas de acesso distribuindo materiais informativos, orientando o público e promovendo o acesso à informação. O trabalho teve início por volta das 18h30 e seguiu até aproximadamente 5h da manhã, acompanhando toda a dinâmica dos desfiles, inclusive no Desfile das Campeãs realizado no sábado (21).
Embora a atuação extrajudicial não estivesse inicialmente prevista como foco central da operação, a procura espontânea do público ampliou o alcance do trabalho. Ao longo dos dias, foram realizados ao menos dez atendimentos jurídicos extrajudiciais, com orientações sobre emissão de nova carteira de identidade, regularização de guarda — incluindo dois casos envolvendo idosas que buscavam formalizar a guarda de neta e sobrinha — além de atendimentos a idosos e esclarecimentos diversos. Também houve o registro de um caso de assédio no domingo de Carnaval, cuja formalização dependia de procedimentos prévios da autoridade policial.
Na área da infância e juventude, a mobilização foi expressiva. Mais de 500 crianças foram identificadas com pulseiras contendo nome e telefone do responsável, abrangendo todas as frisas e setores percorridos pela equipe. Não houve registro de crianças perdidas. A ação contou ainda com ventarolas com QR Code direcionando o público aos canais oficiais da Defensoria, ampliando o acesso aos serviços de forma prática e imediata.
Entre as iniciativas, destacou-se o projeto Defensores do Samba, coordenado pela Defensora Pública e Coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos e Combate ao Racismo (Nucora), Luciana Mota. A ação levou ao público cartilhas sobre enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa, temas diretamente ligados à história e à identidade do Carnaval. Além da distribuição dos materiais, a equipe entrou na passarela com uma faixa institucional, reforçando o compromisso da Defensoria com a promoção da igualdade racial e o respeito à diversidade.
A receptividade do público surpreendeu positivamente a equipe. Muitos foliões, ao identificarem os servidores com o colete institucional, buscaram espontaneamente orientação jurídica e demonstraram confiança no trabalho realizado.
– O Carnaval de 2026 nos proporcionou uma aproximação especial com o público. Não só distribuímos o material como ventarolas, livro da Defensoria Pública e a identificação das crianças com as pulseiras, recebemos também o carinho e confiança das pessoas, que se sentiram à vontade para fazer consultas sobre seus problemas jurídicos. Foi uma grata surpresa atender à população além do Juizado Especial que ali estava presente – destacou a servidora que participou dos atendimentos da COGPI, Susam Azevedo.
As mulheres presentes também foram contempladas com informações sobre os serviços de proteção e enfrentamento à violência doméstica. A iniciativa reconhece que a violência de gênero não se restringe a espaços específicos e que o acesso à informação pode ser decisivo para romper ciclos de violação de direitos.
Para a Defensora Pública e Coordenadora Geral de Programas Institucionais, Mirela Assad, estar presente no Sambódromo significa mais do que acompanhar um evento festivo.
– Estar no Sambódromo é reafirmar o papel institucional de estar onde o povo está. O Carnaval reúne milhares de pessoas de diferentes origens, territórios e realidades, e a atuação no local reforça que o acesso à justiça não se limita aos prédios institucionais, ele deve alcançar todos os espaços – afirmou a Defensora.
A presença na Sapucaí também teve um caráter simbólico e pedagógico. Ao apresentar seus serviços diretamente ao público, a Defensoria fortalece o vínculo com a população e amplia o conhecimento sobre os direitos e os caminhos para garanti-los, seja durante a festa, seja no cotidiano.
A expectativa é que iniciativas como o Defensores do Samba tenham continuidade ao longo do ano, com ações em quadras e espaços comunitários ligados às escolas de samba. A proposta é manter vivo o diálogo com a população e transformar informação em instrumento permanente de cidadania.
Na avenida onde cada escola conta uma história, a Defensoria Pública reafirmou a sua: a de uma instituição que atua com presença, escuta e compromisso, garantindo que, mesmo nos momentos de celebração, o direito de cada cidadão também desfile em posição de destaque.