Ela nasceu em 9 de janeiro de 1919. Atravessou um século, duas guerras mundiais, mudanças políticas, tecnológicas e sociais profundas. Enterrou quatro filhos, ficou viúva, aprendeu a lidar com a ausência e com o silêncio que o tempo impõe. Ainda assim, aos 107 anos, Dona Aucides Matias dos Santos foi até a Defensoria Pública do Estado do Ceará para exercer algo básico: o direito ao documento de identidade.
A mulher mais idosa já atendida pelo serviço de emissão da Carteira de Identidade Nacional (CIN) na Defensoria buscava respeito. Sempre que ia ao banco resolver questões relacionadas à aposentadoria, ouvia a mesma exigência: um documento atualizado.
Conforme o Decreto nº 10.977/2022, o antigo RG (Registro Geral) tem prazo de validade, mas continua aceito em todo o Brasil até 28 de fevereiro de 2032. Não há necessidade de troca imediata, sendo a transição para a nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) gradual. Já a CIN tem data de validade, mas esse prazo muda de acordo com a idade do titular quando tirou o documento. Até 12 anos incompletos validade é de 5 anos; de 12 a 60 anos incompletos validade é de 10 anos; acima de 60 anos quando tirou o documento, validade é indeterminada.
Analfabeta, ela depende do único filho vivo para resolver questões do dia a dia. “Ela precisa de mim pra resolver os problemas. Somos só nós dois. Então, esse novo RG vai auxiliar demais. O antigo RG já estava velho demais e perdeu a validade”, contou o filho Marcos Fábio Maia, de 68 anos, resumindo em poucas palavras o peso que a burocracia pode ter na vida de quem envelhece.
Aos 107 anos, esbanja simpatia. Mantém uma alimentação simples que, segundo ela, tem o abacate como estrela do cardápio, e ainda trabalha costurando tapetes. Conta também com o apoio de dona Maria do Carmo, que a auxilia nas tarefas domésticas. Pequenas redes de cuidado que sustentam uma existência longa, resiliente e silenciosa.
O atendimento aconteceu no espaço de emissão da CIN que funciona dentro do Núcleo de Atendimento e Petição Inicial da Defensoria Pública do Ceará, em Fortaleza, fruto da parceria com a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce). O serviço completou um ano de funcionamento em novembro de 2025 e já garantiu o documento a 2.122 pessoas, muitas delas em situação de extrema vulnerabilidade. O encaminhamento é feito diretamente por defensores e colaboradores sempre que se identifica algum entrave documental no atendimento.
“A identidade civil não é um detalhe burocrático. Ela é a porta de entrada para todos os outros direitos. Quando uma pessoa de 107 anos procura a Defensoria para ter um documento, o que está em jogo é o reconhecimento da sua história, da sua existência e da sua dignidade. Nosso papel é assegurar que ninguém seja invisibilizado, independentemente da idade, da escolaridade ou da condição social”, destaca a defensora geral, Sâmia Farias.
Quando questionada sobre o segredo de uma vida tão longa, a resposta veio sem hesitação: “A fé em Deus. Oração. Não sinto nada. Tenho muita coisa boa pra ensinar”.
Ao final do atendimento, dona Aucides não pediu nada. Ofereceu. Fez uma oração. Pediu que Deus desse “força e luz a ‘tudim’, orientação, bons pensamentos e proteção contra tudo de ruim”. Uma bênção simples, profunda, que atravessou o balcão, os formulários e os séculos.
Talvez seja essa a maior lição. Diante de tantas vulnerabilidades, das dores de enterrar filhos e ver os anos passarem, só uma força que não se mede em documentos explica tamanha permanência. E é justamente por isso que o papel da Defensoria importa tanto: porque garantir identidade, nesse contexto, é reconhecer a existência. É dizer que nenhuma idade é tarde demais para ser visto, ouvido e respeitado.
Aos 107 anos, ela segue ensinando. E a Defensoria, aprendendo, todos os dias, que justiça também se faz com escuta, humanidade e fé na dignidade de quem resiste.