O artigo “Grupos reflexivos virtuais para homens autores de violência doméstica na pandemia: o projeto RenovAção da Defensoria Pública do Distrito Federal”, de autoria da psicóloga da Subsecretaria de Atividade Psicossocial (SUAP) da Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF), Roberta de Ávila, apresenta resultados de uma pesquisa analítica minuciosa sobre a iniciativa. O trabalho está disponível no 3º volume, de 2021, da Revista da Defensoria (RDPDF).
O RenovAção Homens, projeto coordenado pela Subsecretaria de Atividade Psicossocial da DPDF, objetiva construir um espaço de pertencimento e acolhimento para homens autores de violência doméstica. Desde 2017, edições do grupo são fomentadas pela instituição, apoiadas na política de educação em direitos e saúde mental.
Como uma intervenção social para diminuir a incidência da violência doméstica contra a mulher, o projeto trabalha para que os homens, envolvidos na violência de gênero, construam uma realidade pacífica. Para isso, é indispensável que aprendam a reconhecer, a perceber e a ressignificar sobre a construção social das masculinidades. Baseado neste eixo, o artigo retorna a efetividade do projeto, ainda que em contextos adversos.
O ano de 2020 foi marcado pelo avanço dos casos de Covid-19, o que acarretou na implementação de medidas sanitárias emergenciais para conter a crise sanitária. Entre as ações, o isolamento social determinou o fechamento de espaços sociais comuns e cerceou a convivência para o contexto intrafamiliar. Assim, os encontros do RenovAção se adaptaram ao meio prioritário de comunicação: a interação virtual.
Logo, a metodologia do projeto foi organizada da seguinte forma: nove encontros síncronos, totalizando 18 horas/aulas, com abordagens teóricas e inclusivas a partir da perspectiva de gênero. Além do diálogo interdisciplinar e das demandas incorporadas pelo grupo, as reuniões atravessaram temas como a Lei Maria da Penha, a comunicação não-violenta e a inteligência emocional.
Avaliação dos resultados
Para avaliar os resultados construídos durante a iniciativa na modalidade virtual, o artigo difunde dados da pesquisa qualitativa que foi obtida por um questionário semiestruturado. Os participantes do RenovAção Homens, público com adesão aproximada a 100%, avaliaram quatro aspectos de impacto no formulário.
A primeira pergunta, sendo “Qual era a sua visão/impressão da Lei Maria da Penha antes da participação no Projeto Renovação-Homens?”, retornou que 15,38% dos homens consideravam a Lei como um benefício para as mulheres e outros 13,46% acreditavam na importância da legislação para proteção feminina. Anterior ao projeto, uma porcentagem considerável reconheceu que atribuía pontos negativos à Lei ou desconhecia sua aplicação.
Já a análise da segunda questão: “Quais foram as aprendizagens adquiridas e observadas no Projeto RenovAÇÃO-Homens?”, evidenciou um panorama múltiplo de conhecimentos adquiridos. Numa perspectiva geral, os homens avaliaram que com o projeto acessaram mais valores éticos, melhorias na inteligência emocional e nos relacionamentos, assim como, o exercício do autocontrole e da vida saudável em convívio.
Quanto à terceira pergunta do questionário, elaborada em “Você acredita que o Projeto contribuiu para o seu entendimento das relações entre homens e mulheres? Em caso afirmativo, explique de que forma”, os resultados desdobraram outro efeito categórico. Com 100% de afirmações nesta parte, as respostas variaram entre o reconhecimento de uma postura empática, como a visão de respeito em relacionamentos conjugais e, em consonância, a reflexão sobre individualidade.
A repercussão positiva também se consagrou na última questão: “Você acha que as aprendizagens adquiridas com o projeto Renovação podem provocar mudanças de atitudes, comportamentos e práticas em sua vida cotidiana? Justifique sua resposta”. Em suma, os participantes consideraram que a iniciativa, baseada no diálogo, promoveu a reflexão sobre si e a transformação de uma postura violenta para o bem de todos os envolvidos, aliviando as tensões e sofrimentos.
Com a análise, os resultados promissores, relacionados em especial à sensibilidade de gênero, indicam que o Projeto RenovAção Homens avança na perspectiva de “modificar os padrões sociais e culturais de conduta de homens e mulheres” (Art. 8º, Convenção de Belém do Pará, 2006).
A Defensoria Pública do DF constitui-se como entidade principal na defesa dos mais vulneráveis e, para isso, trabalha para atender demandas além das judiciais. Fundamentada na proteção social, a instituição fomenta empreendimentos tais como os grupos virtuais reflexivos e psicoeducativos voltados para homens. Segundo o artigo, tal estratégia revelou-se uma ação pública eficaz, pois abre espaço para a consciência de gênero não como ponto de partida, mas sim de chegada do conhecimento.